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Por que nossos jardins ainda têm tão pouca natureza?

Foto do escritor: Gustavo Bueno
Gustavo Bueno
23 de set.
5 min de leitura

Biodiversidade, exuberância e uma outra maneira de pensar o paisagismo


Vivemos em um dos países de maior diversidade vegetal do planeta.

Ainda assim, muitos dos nossos jardins são construídos com poucas espécies, grandes superfícies minerais, vegetação isolada e uma ideia de organização que frequentemente depende de simplificar a própria natureza.

Talvez exista uma contradição aí.

Em algum momento, aprendemos que projetar um jardim significava organizar a natureza — e organizar passou, muitas vezes, a significar controlar, separar e reduzir.

Mas será que precisa ser assim?


Quando organizar significa simplificar

Gramados perfeitamente aparados. Plantas isoladas. Maciços formados por poucas espécies. Bordas precisas. Pedras ocupando grandes superfícies. Vegetação mantida dentro de volumes muito definidos.

Essa é uma das linguagens possíveis do paisagismo.

O problema não está na geometria, nas pedras ou em um jardim mais contido. Todos esses elementos podem fazer parte de excelentes projetos.

A questão começa quando a estética se torna praticamente o único critério.

Porque um jardim não é uma imagem estática.

É um sistema vivo.

Plantas crescem, disputam luz, exploram diferentes camadas do solo, produzem sombra, florescem, frutificam, perdem folhas e estabelecem relações com inúmeros outros organismos.

Quanto mais reduzimos o jardim a uma composição visual, maior é o risco de deixarmos de considerar justamente aquilo que faz dele natureza.

E a relação entre naturalidade e beleza talvez seja menos óbvia do que parece.

Uma pesquisa realizada em Singapura investigou a percepção das pessoas diante de áreas verdes com diferentes graus de crescimento mais espontâneo. Os participantes não rejeitaram, em princípio, níveis moderados de vegetação mais “selvagem”, e características como maior presença de flores e fauna aumentaram a preferência por essas paisagens.

Isso não significa que todas as pessoas prefiram jardins densos ou naturalistas.

Significa algo mais interessante:

Naturalidade e beleza não precisam ocupar lados opostos.


Projetar a complexidade

Existe uma diferença enorme entre simplesmente colocar muitas plantas em um espaço e projetar uma paisagem vegetalmente complexa.

Observe uma floresta tropical.

A vegetação não ocupa apenas o chão.

Ela ocupa o espaço.

Árvores emergentes, copas, sub-bosques, arbustos, forrações, trepadeiras e epífitas constroem diferentes níveis de ocupação. Luz, água, umidade, matéria orgânica, fauna e vegetação participam de relações que mudam continuamente.

Um jardim não precisa reproduzir uma floresta.

Mas pode aprender com sua lógica.

E é justamente isso que torna algumas experiências contemporâneas de Singapura interessantes.

As chamadas Nature Ways utilizam plantios em diferentes estratos para recriar parte da estrutura encontrada naturalmente nas florestas. Árvores emergentes, copa, sub-bosque e camada arbustiva cumprem funções distintas e oferecem alimento e habitat para diferentes grupos de fauna. Hoje, Singapura possui cinquenta e sete Nature Ways, que somam cerca de duzentos e sessenta quilômetros, com a meta oficial de alcançar trezentos quilômetros até dois mil e trinta.

Não se trata de abandonar o desenho para deixar a natureza simplesmente tomar conta.

É justamente o contrário.

Trata-se de projetar a complexidade.


E nós estamos no Brasil

É aqui que essa discussão se torna particularmente interessante para nós.

Enquanto diferentes lugares procuram maneiras de aumentar a biodiversidade e devolver complexidade vegetal ao ambiente construído, o Brasil parte de uma condição extraordinária.

A Flora do Brasil dois mil e vinte registrou quarenta e seis mil novecentas e setenta e cinco espécies nativas entre plantas, algas e fungos, incluindo mais de trinta e duas mil espécies de angiospermas. Considerando somente as plantas terrestres, cinquenta e cinco por cento das espécies registradas são endêmicas do Brasil — isto é, ocorrem naturalmente apenas aqui. O levantamento estima ainda que o país abrigue cerca de dez por cento das espécies de plantas já descritas pela ciência no planeta.

Isso muda bastante a maneira como podemos enxergar a vegetação nativa dentro do paisagismo.

Trabalhar com espécies nativas não precisa significar limitar o repertório do projeto.

No Brasil, pode significar justamente ampliá-lo.

Árvores, palmeiras, arbustos, trepadeiras, bromélias, orquídeas, samambaias, herbáceas e forrações oferecem possibilidades extraordinárias de porte, textura, floração, volume e ocupação dos diferentes estratos da paisagem.

E em regiões de Mata Atlântica essa discussão ganha um significado ainda mais próximo.

Temos diante de nós um repertório vegetal extraordinário para construir paisagens contemporâneas, exuberantes e biodiversas sem precisar reduzir a natureza para que ela pareça projetada.

Por isso, talvez exista uma oportunidade que ainda exploramos pouco.

Não precisamos escolher entre um jardim contemporâneo e um jardim biodiverso.

Nem entre desenho e exuberância.

Nem entre arquitetura e natureza.

Em um dos países de maior diversidade vegetal do planeta, biodiversidade também pode ser linguagem de projeto.


Paisagismo e arquitetura podem começar juntos

Essa maneira de pensar também muda o momento em que o paisagismo entra em um projeto.

Quando o jardim é entendido apenas como ornamentação, parece natural pensar nele depois que praticamente todas as outras decisões já foram tomadas.

A construção termina.

E então alguém pergunta onde colocar as plantas.

Mas a paisagem pode participar da sombra, das vistas, dos percursos, da drenagem, do microclima, das transições entre interior e exterior e da maneira como as pessoas experimentam o espaço.

Nesse caso, o paisagismo começa muito antes.

Ele participa da concepção.

Singapura oferece novamente uma referência interessante. Suas diretrizes atuais incentivam empreendimentos a utilizar plantios multiestratificados e recomendam que pelo menos metade da paleta proposta seja composta por espécies nativas do Sudeste Asiático. O programa LUSH, criado em dois mil e nove para integrar vegetação ao ambiente construído, já contribuiu com mais de quatrocentos e quarenta hectares de áreas verdes distribuídas pela cidade.

Isso revela uma mudança importante de raciocínio.

Paisagismo não é preencher o espaço que a arquitetura deixou.

É projetar a relação entre arquitetura, pessoas e paisagem.


Uma Lógica Ecológica

É dessa maneira que entendemos, na Casa Natureza, a ideia de Lógica Ecológica.

Ela não significa transformar todo jardim em floresta.

Também não significa utilizar exclusivamente espécies nativas ou abandonar desenho, composição e intenção estética.

Significa compreender como aquele lugar funciona antes de decidir como ele deve parecer.

Como o sol atravessa o espaço?

Como a água circula?

Onde existe maior umidade?

Quais espécies encontram ali condições adequadas?

Como diferentes portes e estratos podem coexistir?

Como aquela vegetação poderá se transformar ao longo dos anos?

Que relações esse jardim pode estabelecer com aves, insetos e outros organismos?

E como tudo isso se relaciona com a arquitetura e com as pessoas?

Nesse raciocínio, a ecologia não aparece depois do projeto como uma correção ambiental.

Ela participa do próprio ato de projetar.

E a estética não desaparece.

Ela continua fundamental.

Mas não é o único critério.

O desenho ganha matéria.

Ganha tempo.

Ganha relações.

Ganha vida.

Talvez o paisagismo brasileiro não precise buscar fora uma nova imagem de natureza.

Talvez precise redescobrir a extraordinária natureza que já tem.

Porque um jardim não precisa apenas parecer natureza.

Ele pode funcionar como natureza.


Casa Natureza

Paisagens que fazem sentido


Referências científicas e técnicas

Hwang, Y. H.; Yue, Z. E. J.; Ling, S. K.; Tan, H. H. V. “It’s ok to be wilder: Preference for natural growth in urban green spaces in a tropical city.” Urban Forestry & Urban Greening, v. 38, p. 165–176, 2019. DOI: 10.1016/j.ufug.2018.12.005.

BFG — The Brazil Flora Group. “Flora do Brasil 2020.” Jardim Botânico do Rio de Janeiro, 2021. O projeto reuniu uma rede de 979 taxonomistas, de 224 instituições, em 25 países.

National Parks Board Singapore. “Nature Corridors and Nature Ways.” Referência técnica sobre conectividade ecológica e plantios multiestratificados inspirados na estrutura das florestas. A rede possui 57 Nature Ways, somando cerca de 260 km, com meta de alcançar 300 km até 2030.

Urban Redevelopment Authority of Singapore. “A City in Nature.” Master Plan 2025. Diretrizes sobre biodiversidade, espécies nativas, plantios multiestratificados e o programa LUSH, iniciado em 2009.

 
 
 

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