O que a floresta faz com o nosso corpo ?

O que isso pode ensinar sobre os jardins?
A ciência começa a entender algo que talvez já tenhamos sentido: estar entre plantas pode mudar a forma como nosso corpo responde ao ambiente.
Caminhar por uma floresta é diferente de caminhar por uma rua.
A temperatura muda. A luz é filtrada pelas copas. Há umidade, movimento, aromas, sons e uma enorme quantidade de vida ao redor.
Mas será que essa diferença é apenas uma percepção de bem-estar?
Há algumas décadas, pesquisadores começaram a investigar essa questão de maneira objetiva. E os resultados ajudam a ampliar uma discussão que interessa diretamente ao paisagismo contemporâneo: qual é o papel da natureza nos espaços em que vivemos?
Shinrin-yoku: quando caminhar na floresta virou objeto de pesquisa
No Japão, o contato contemplativo com ambientes florestais é conhecido como Shinrin-yoku, expressão normalmente traduzida como “banho de floresta”.
Um dos pesquisadores mais conhecidos nesse campo é Qing Li, da Nippon Medical School, no Japão.
Em uma série de estudos, Li e seus colaboradores investigaram alterações fisiológicas e imunológicas associadas à permanência e às caminhadas em ambientes florestais.
Em um dos experimentos, doze homens passaram três dias e duas noites em regiões de floresta. Durante a experiência, realizaram caminhadas de aproximadamente duas horas.
Após a exposição, onze dos doze participantes apresentaram aumento da atividade das células Natural Killer, ou células NK, componentes importantes do sistema imunológico. O estudo também encontrou alterações em proteínas relacionadas à atividade dessas células.
Outros experimentos realizados posteriormente com participantes do sexo feminino também encontraram aumento da atividade das células NK após a experiência florestal.
Isso não significa que uma caminhada na floresta seja tratamento para doenças. Significa algo mais específico e igualmente interessante: determinadas respostas fisiológicas associadas à exposição a ambientes florestais podem ser medidas.
Mas o que existe no ar de uma floresta?
É aqui que entram as fitoncidas.
Plantas produzem e liberam diversos compostos voláteis no ambiente. Entre os compostos encontrados no ar das florestas estudadas por Li estão substâncias como alfa-pineno e beta-pineno.
Em um estudo que comparou uma viagem para uma região florestal com uma viagem turística para uma cidade, os pesquisadores detectaram essas fitoncidas no ar da floresta, enquanto sua presença no ambiente urbano foi praticamente inexistente.
A experiência na floresta foi associada ao aumento da atividade das células NK e à redução da concentração de adrenalina urinária. A experiência urbana utilizada para comparação não apresentou os mesmos resultados.
Os pesquisadores, entretanto, foram cuidadosos: as fitoncidas podem contribuir parcialmente para os efeitos observados. A floresta é um sistema complexo, e seus efeitos não podem ser atribuídos simplesmente a uma única substância.
É possível separar as fitoncidas da própria floresta?
Qing Li e seus colaboradores fizeram uma experiência especialmente interessante para responder parte dessa pergunta.
Em vez de levar os participantes para uma floresta, doze homens permaneceram durante três noites em um hotel urbano.
Durante a noite, óleo do cipreste japonês Hinoki foi vaporizado nos quartos, produzindo compostos voláteis encontrados também em ambientes florestais.
Os pesquisadores detectaram alfa-pineno e beta-pineno no ar dos quartos e observaram aumento da atividade das células NK e alterações em outros marcadores estudados, além de redução de adrenalina e noradrenalina urinárias.
Mais uma vez, a conclusão foi prudente: a exposição às fitoncidas e a redução dos hormônios relacionados ao estresse podem contribuir parcialmente para os efeitos encontrados.
Isso abre uma perspectiva fascinante.
E o que tudo isso tem a ver com um jardim?
Uma floresta não é um jardim.
E seria incorreto afirmar que possuir um jardim em casa reproduzirá os mesmos resultados encontrados nos estudos de Shinrin-yoku.
Mas talvez essa nem seja a pergunta mais interessante.
A pergunta poderia ser:
O que podemos aprender com esses ambientes naturais para projetar melhor os lugares onde vivemos?
Um jardim pode proporcionar contato cotidiano com vegetação, aromas, texturas, sombra, umidade, movimento, sons naturais, variações de luz e diferentes formas de vida.
Quanto maior a diversidade e a presença da vegetação, mais o espaço deixa de funcionar apenas como cenário e passa a constituir uma experiência ambiental.
A pesquisa sobre as fitoncidas acrescenta mais uma camada a essa discussão: nossa relação com as plantas não acontece somente através dos olhos.
Nós estamos fisicamente inseridos naquele ambiente.
Respiramos nele. Sentimos sua temperatura. Percebemos seus aromas. Ouvimos seus sons. Tocamos seus materiais. Observamos a mudança da luz ao longo do dia.
É uma relação multissensorial.
Do jardim ornamental ao Wellness Landscape
É nesse ponto que o conceito de Wellness Landscapes ganha significado.
Projetar uma paisagem pensando em bem-estar não significa simplesmente colocar mais plantas em um espaço.
Significa pensar em como vegetação, sombra, água, luz, temperatura, aromas, sons, materiais, biodiversidade, percursos e lugares de permanência podem trabalhar juntos para construir uma experiência.
O jardim deixa de ser apenas aquilo que observamos através de uma janela.
Ele passa a ser um espaço para entrar, caminhar, permanecer, respirar e perceber.
Isso também muda a maneira de pensar o paisagismo.
A escolha de uma planta pode considerar sua forma e sua cor, mas também sua textura, seu aroma, o movimento produzido pelo vento, a sombra que proporcionará, sua relação com outras espécies e a experiência que produzirá ao longo do tempo.
Não se trata de tentar reproduzir artificialmente uma floresta em qualquer terreno.
Trata-se de compreender alguns dos princípios que fazem dos ambientes naturais sistemas tão ricos e trazê-los, de maneira responsável, para a escala da vida cotidiana.
Talvez a natureza ao redor da casa seja mais importante do que imaginávamos
Durante muito tempo, jardins foram tratados principalmente como elementos ornamentais.
A ciência que investiga nossa relação com ambientes naturais sugere que essa visão pode ser pequena demais.
Ainda há muito a pesquisar. Revisões científicas apontam resultados promissores para a terapia florestal, mas também destacam limitações importantes nos estudos existentes, como amostras pequenas e diferenças metodológicas. Portanto, transformar essas pesquisas em promessas médicas seria precipitado.
Mas uma coisa fica cada vez mais interessante:
a paisagem que construímos ao nosso redor não precisa ser apenas bonita.
Ela pode criar oportunidades diárias de contato com sistemas vivos.
E talvez um dos caminhos para projetarmos espaços melhores esteja justamente em observar aquilo que a floresta vem fazendo há milhões de anos.
Na Casa Natureza, essa é uma das bases do nosso olhar para o paisagismo e para os Wellness Landscapes: criar paisagens nas quais natureza, experiência e pessoas façam parte do mesmo sistema.
Paisagens que fazem sentido.
Referências científicas
Li, Q. et al. Phytoncides (wood essential oils) induce human natural killer cell activity. Immunopharmacology and Immunotoxicology, dois mil e seis. DOI: 10.1080/08923970600809439.
Li, Q. et al. Forest bathing enhances human natural killer activity and expression of anti-cancer proteins. International Journal of Immunopathology and Pharmacology, dois mil e sete. DOI: 10.1177/03946320070200S202.
Li, Q. et al. Effect of phytoncide from trees on human natural killer cell function. International Journal of Immunopathology and Pharmacology, dois mil e nove. DOI: 10.1177/039463200902200410.
Li, Q. Effect of forest bathing trips on human immune function. Environmental Health and Preventive Medicine, dois mil e dez. DOI: 10.1007/s12199-008-0068-3.



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