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Por que alguns lugares fazem a gente querer ficar — e outros fazem a gente querer ir embora?

Foto do escritor: Gustavo Bueno
Gustavo Bueno
23 de set.
4 min de leitura

O que a ciência começa a revelar sobre a relação entre ambiente, percepção e comportamento


O espaço também é percebido pelo corpo

Às vezes entramos em um lugar e queremos ficar.

Em outro, mesmo sem identificar exatamente o motivo, sentimos vontade de sair.

Pode ser um restaurante, um hotel, uma loja, uma praça ou mesmo uma casa. Enquanto observamos conscientemente um ambiente, nosso organismo também responde a diferentes condições ao redor: luz, sons, temperatura, organização espacial, movimento, materiais, vegetação e vistas.

Talvez a pergunta, então, não seja apenas se um lugar é bonito.

Mas o que aquele lugar faz conosco enquanto estamos nele.


Quando arquitetura, ambiente e cérebro se encontram

É nessa fronteira que aparece a neuroarquitetura, um campo interdisciplinar que aproxima arquitetura, neurociência, psicologia ambiental e estudos sobre percepção e comportamento.

Pesquisadores vêm utilizando recursos como eletroencefalografia, medidas fisiológicas, técnicas de neuroimagem e ambientes virtuais para investigar como diferentes características espaciais se relacionam com respostas cognitivas e emocionais.

Isso não significa que exista uma fórmula científica capaz de determinar exatamente como uma pessoa reagirá a determinado ambiente.

A neuroarquitetura ainda é um campo em desenvolvimento. Revisões da literatura apontam resultados promissores, mas também diferenças importantes entre métodos, condições experimentais e formas de medir a experiência humana.

O que essas pesquisas reforçam é algo particularmente interessante para quem projeta espaços: o ambiente construído participa da experiência das pessoas que o utilizam.


Aproximar-se ou evitar

Muito antes de a palavra neuroarquitetura se popularizar, a psicologia ambiental já investigava comportamentos de aproximação e afastamento diante dos ambientes.

Um exemplo interessante aparece em pesquisas realizadas no varejo.

Em um estudo de campo publicado no Journal of Retailing, Robert Donovan e colaboradores observaram que o prazer relatado pelos consumidores durante a experiência na loja foi um preditor significativo do tempo adicional que permaneceram no estabelecimento e também de gastos adicionais.

O resultado não significa que exista uma receita espacial capaz de fazer alguém permanecer ou consumir mais.

O comportamento humano depende de inúmeros fatores.

Mas o estudo ajuda a demonstrar que a experiência emocional associada ao ambiente pode participar de comportamentos concretos de permanência e consumo.


E onde entra a natureza?

Aqui a discussão se aproxima de outro campo importante: o design biofílico.

A presença da natureza nos ambientes pode acontecer de diferentes maneiras: vegetação, vistas para áreas naturais, luz natural, água, materiais naturais e relações mais abertas entre interior e exterior.

Uma revisão sistemática sobre exposição à natureza analisou estudos que utilizaram tanto medidas subjetivas quanto indicadores fisiológicos de estresse. Os resultados encontrados pelos autores apontaram redução do estresse percebido em cinco dos seis estudos que o avaliaram e resultados favoráveis nos sete estudos que utilizaram indicadores fisiológicos.

Isso não significa que qualquer contato com vegetação produza automaticamente os mesmos efeitos.

Os próprios estudos variam quanto ao tipo de ambiente, duração da exposição, população analisada e métodos utilizados.

É justamente por isso que biofilia não deve ser reduzida à ideia de simplesmente colocar plantas em um ambiente.

Uma revisão recente de cento e trinta e seis estudos sobre intervenções biofílicas em ambientes internos analisou elementos como plantas, paredes verdes, vistas para a natureza, luz natural, materiais naturais, água e referências visuais à natureza. O conjunto da literatura mostra que diferentes características e formas de exposição precisam ser consideradas quando se investigam respostas restauradoras, cognitivas, psicológicas e fisiológicas.


Talvez seja por isso que alguns lugares parecem nos acolher

Imagine um espaço com sombra, temperatura confortável, iluminação agradável, vegetação próxima, possibilidade de observar o exterior e condições acústicas que não exigem atenção constante.

Agora imagine o contrário.

Calor excessivo. Ofuscamento. Ruído. Circulação difícil. Poucas possibilidades de encontrar uma posição confortável.

Não é cientificamente correto afirmar que um desses elementos, isoladamente, determinará como alguém vai se sentir.

A experiência espacial resulta da interação entre diversas características ambientais e também das diferenças entre as próprias pessoas.

Ainda assim, pesquisas sobre qualidade ambiental interna vêm investigando justamente relações entre condições como conforto térmico, iluminação, qualidade do ar e ruído e diferentes respostas psicológicas e fisiológicas.

Aquilo que chamamos de atmosfera pode, portanto, envolver muito mais do que uma impressão estética.


Da biofilia à paisagem

Quando essa discussão ultrapassa o interior dos edifícios, a própria paisagem passa a participar da experiência espacial.

Um jardim pode deixar de ser apenas algo observado através de uma janela.

A vegetação pode acompanhar percursos. A sombra pode favorecer lugares de permanência. A água pode participar da experiência sensorial. A arquitetura pode se abrir para a paisagem. Jardins, varandas, pátios e áreas externas podem estabelecer transições entre dentro e fora.

É nessa escala que conhecimentos provenientes da psicologia ambiental, do design biofílico e das pesquisas sobre percepção do espaço começam a dialogar diretamente com o paisagismo.

E também é uma das bases para pensar Wellness Landscapes: compreender a paisagem não apenas como composição visual, mas como parte da experiência humana do lugar.


Projetar para a experiência

Durante muito tempo, boa parte da discussão sobre espaços esteve concentrada na estética e na função.

Essas duas dimensões continuam fundamentais.

Mas existe uma terceira pergunta igualmente importante:

Como as pessoas experimentam aquele lugar?

Em uma residência, isso pode envolver conforto e vínculo.

Em um hotel ou pousada, pode participar da experiência da hospedagem.

Em um restaurante, da atmosfera que acompanha a refeição.

Em um espaço comercial, da maneira como o cliente percebe, percorre e utiliza o ambiente.

A ciência ainda está longe de oferecer uma fórmula universal para produzir essas respostas — e talvez uma fórmula desse tipo nem seja possível diante da complexidade do comportamento humano.

O que existe é um corpo crescente de pesquisas mostrando que a relação entre pessoas e ambientes pode ser investigada de maneira objetiva.


E talvez seja justamente aí que ciência e projeto começam a se encontrar.


Porque alguns lugares não apenas parecem bonitos.

Eles fazem com que queiramos estar ali.

E, às vezes, ficar um pouco mais.


Casa Natureza

Paisagens que fazem sentido


Referências científicas

Higuera-Trujillo, J. L.; Llinares, C.; Macagno, E. (2021). The Cognitive-Emotional Design and Study of Architectural Space: A Scoping Review of Neuroarchitecture and Its Precursor Approaches. Sensors, 21(6), 2193. DOI: 10.3390/s21062193.

Donovan, R. J.; Rossiter, J. R.; Marcoolyn, G.; Nesdale, A. (1994). Store Atmosphere and Purchasing Behavior. Journal of Retailing, 70(3), 283–294. DOI: 10.1016/0022-4359(94)90037-X.

Shuda, Q.; Bougoulias, M. E.; Kass, R. (2020). Effect of Nature Exposure on Perceived and Physiologic Stress: A Systematic Review. Complementary Therapies in Medicine, 53, 102514. DOI: 10.1016/j.ctim.2020.102514.

Biophilic Design Interventions and Properties: A Scoping Review and Decision-Support Framework for Restorative and Human-Centered Buildings. Buildings, 16(3), 515.

 
 
 

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